Farfalhando as folhas, bagunçou o resto da poda, abraçou-a partindo das costas, comprimiu as costelas, comprimiu o ar. Êmbolo. Não via, mas sabia o que acontecia com as moléculas no estado gasoso, quando tem paredes em volta delas, enlouquecem - e achava que tinha aprendido isso por nada. Forçou um olhar de “que bom de te ver” , mas mesmo que não o visse, era bom tê-lo, era bom tê-lo lá no canto dele e ela no dela, se não ele no canto dela e ela no mesmo canto, ou os dois cantando, mas não separados querendo estar juntos, apenas juntos porque tinham que estar juntos naquele dado instante, que só era especial porque não estavam juntos nos outros.

- Que foi? Você não tava com saudade?

Sorriu apenas, e as folhinhas, e os galhinhos, e as moscas fugiam de casa, como ela já quis fugir, por n motivos, mas não o fez.

- Bom, não quer falar, eu falo por nós dois - de algo servira, ele nunca falava muito, não tanto quanto ela, e geralmente quando ela não falava ele não falava também e dormiam na grama, e acordavam quentes do sol ou quentes do corpo um do outro - todas as outras coisas que existiam eram apenas complementos, cenários na peça da existência deles, escrita por sabe se lá quem - minha mãe vai comprar óculos novos para Sabrina, será que ela não vê que os meus estão se desfazendo na ponta do meu nariz, na minha cara, debaixo dos meus olhos, literalmente? 

Ria-se de suas próprias “piadas” sozinho, porque só ele entendia mesmo, porque só ele as considerava piadas.

- Mas ela vai ver só, quando vier me pedir pra resolver as coisas pra ela, aquelas contas malucas do escritório dela que só eu consigo resolver, e ela paga uma fortuna praqueles contadores, que mal sabem dividir na calculadora, nem naquelas

- Shhhhh, deixa o ruído falar.

Levou as mãos rapidamente à boca, sem entender de fato. Mas fora tão estia, que nem teve a coragem de questionar.

A tesoura ruinava toda a rua, que agora nem carro tinha, era exatamente o tipo de ruído que ela buscava, ritmado, de morte e ressurreição, sentia-se poderosa em  relação àquelas vidas que cultivava, árvores eram melhores que pessoas, e na vindima ainda enchiam a barriga.

~   Clarice Lispector   (via doce-de-leitee)
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I Miss You - Blink 182 (cover)

desconecte-me:

os homens discutem

por isso há juízes 
e tribunais

os homens adoecem
por isso há médicos 
e hospitais

os homens não entendem
por isso há filósofos
e bibliotecas

os homens esquecem 
as palavras que constroem suas arestas
o amor que planta suas casas
por isso há poetas

EHRE

~   A Menina Que Roubava Livros  (via meserendipity)

Respectivo.

E na verdade não partimos do platônico - usufruíste de tudo que conhecia, da decência.

Lidas todas as entrelinhas, alcançaste o íntimo, rápido - meus nervos boiavam à procura da borda em adágio.

A cura apenas existe e é estranhamente estática - só tira-me do que me mata antes da hipotermia.

E dos seus olhos…Eu louca, daltônica? - Ou essas cores são mesmo feitas de ilusão de ótica, confundidora da minha essência.

Como poder crer que te trocaria por um ínfimo, estrábico? - Prefiro até morrer hoje de amor, por tuas mãos possessivas, teu contágio.

Respiraste, sangraste, amaste e não pensaste como máquina - como faz o mundo. Não é mesmo o mundo, és a calmaria.

Contudo vem o amargar, ser acre e amar, só teus lábios ambrosíacos recordam-me do vértice, e enquanto deles sou privada fico crítica, estúpida, maléfica, esdrúxula, bélica, cética como quando puseste os olhos em mim - como quem retirava um corpo às escuras do cemitério, pleonasticamente sem vida, sem alma, ébrio (como tanto disseram os romantistas) no pico do declínio, pesando mais ainda sobre a decadência, choca-te

Abrupto.

Adormeço sem os olhos fechados e lábios rachados,

De tanto falar

Convenço-me de que nada que não acaba é irremediável,

Mas ser irascível torna-se tão pouco.

Incomode-se comigo e chute minha veleidade,

Mas não peça para não ser pluralista,

Tampouco me impeça de atirar-me nessa pocilga

Naquela que mato minha sede, às vezes.

Deliro, e o delírio é bem avesso ao sonhos

Sonhos são conscientes mentiras subconscientes, idílicos

Mas ser louca, hoje, é tão pouco.

Tente-me a lacrimejar, sob qualquer outra circunstância, prantos,

Mas pronto, hoje, calo-me sem seu colo, não morro,

Tampouco vivo, calo-me de medo do teto de vidro

Que quebrado fere meu orgulho, minha amada hipocrisia

Acordo, e meu raciocínio se perde em devaneios

E depois de acordada de verdade, mal me lembro.

Nem sei se me pendurava, eu sem eira nem beira,

Ali bem na beirada, jogar-me seria tão pouco.

Empurre-me, falta tão pouco.

Encha-me de pétalas de bem-me-que e,

Nunca saberei se me quis mesmo

Sempre parecemos miscíveis um ao outro.

Frascos vedados do mundo, mas então talvez não fôssemos,

Tampouco.

Só seguíssemos algo pluvial, antes das pedras

Agora a correnteza violenta quebra elo por elo

Arrasta-me até a lama, onde meu amar

Não é nem pouco, tampouco tão pouco,

É irrelevante.

Poderia eu acordar, julgar-te a causa das úlceras que vez ou outra rompem os limites da minha amina e tornam-me parte do que é o mundo. Claro que acordando débil e debilitada, como acordava há pouco, antes de você, é agora, força-me a tratar tudo diferente, porque hoje é diferente de ontem, porque não mentimos, porém iludimos a nós mesmos, acreditando que seríamos os mesmos até o leito dos sonhos - eternos; Ficam esses restos decompondo dentro das veias quando deveriam ser limados, contudo nunca serão, somos nós mesmo, de hoje, de ontem, de antes de ontem, daquele dia solto da agenda do ano passado, daquele choro engolido, daquele dia que a gente quis que passasse mais rápido, ou mais devagar, se o fim fosse ou não interessante para o dia seguinte, e tudo atravanca a explosão, não permite que você chegue terno e atrele-se à minh’alma, bem atrevido como assim deve ser e fluir, escorregar pelo tempo sutilmente como o lápis faz na folha, e quando acordarmos, no fim, nem teremos notado que a lápide estará feita e a terra nos cobrirá, o enredo também e na verdade pouco importa quem vai ler, uma vez que somos os autores.

Poderíamos abster-nos de nós mesmo, esconder-nos, refugiar-nos em um planho em que nada mais existisse? E nada consiste na falta de você, e talvez para você a falta de mim. Poderia ser que por alguns instantes nos ocupássemos com o nada, mas o vazio absorve qualquer resistência e existência, tira-me a vida depois de já tê-la tirado e devolve, piedosamente, e o tudo retorna atípico, atlântico, e eu atônica afogo-me nos seus planos, sem palavras, atropelando-me e juntando cada víscera, mais uma vez.

Poderia eu optar mesmo pelo silêncio, tendo notado que sou daquelas que diz, diz, diz, e não quer dizer nada, por puro desejo, ou desdesejo, ou farsar um desdenho desse desjejum de você. Mas você sabe que os olhos não enganam quem pode vê-los fora do espelho, e os seus são cristalinos, de puro âmbar me carregando energéticamente, magnéticamente. Porém tudo aqui, poderia ter sido feito, e não foi, se ainda tenho forças é porque até então me sustentou, admito que não fui leve, isolou-me na impermeável membrana titânica, não-tirânica, do seu coração, protegendo-me de mim mesma, e sem querer me ensinando a cuidar, no fundo sabia que eu cuidaria de você.

Canvas  by  andbamnan
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